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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

falo-te com ternura.
reitero, incansável. 
gosto do silêncio e das palavras que ficam presas no limiar do pensamento, já à beira da intenção. das inverdades não externadas, escondidas sob o véu do eufemismo.
e sinto-me exausto diante do teu jogo verborrágico, que faz brotar as frivolidades em desequilíbrio, feito a sombra da vela sempre acesa no teu escuro quarto.
é no calor das tantas palavras que me queimo, na ardência da repugnância, cheio de prazer e de nojo.
retraio-me e atraio-me. pelo teu discurso falacioso e cheio de graça, pelos teus quês fora de hora, pelo teu histérico e suave grito de medo.
o que eu não gosto em ti é também o que em ti venero.
admiro-te pelas contradições, pelo que é agora e jamais será.
eu te amo.
eu te odeio.
sem ti eu não vivo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

apenas queria ouvir-te falar baixo e devagar, bem próximo ao meu pescoço, algumas bonitas palavras que só por ti conseguem ser proferidas em dias assim, de fragilidade. tu, que me cheira a mel e me faz sentir segurança quando por perto, já não estás a andar por cá com tanta frequência, isso me assusta e me faz pensar que os teus sonhos estão a andar por trilhos distintos dos meus. se não estiveres aqui dentro de dois dias, já terei a certeza infeliz, imediatista que sou, de que estás a abandonar o teu ninho. e já me dói a ideia de ter de me desacostumar de todas as manias que aqui incutiste, no meu fracionado cotidiano. então, mulher, te apressas em reaparecer, o teu chá está a esfriar e no teu lugar a saudade a se aboletar. o mais óbvio já sabes, eu te amo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

naquela imensidão entre os abraços,
ficaram perdidos os fragmentos;
os pedaços do nosso amor.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

aquela atriz

encontramo-nos na esquina da solidão, onde se cruzam duas movimentadas avenidas, repletas de edifícios cor-de-cinza, restaurantes requintados, lojas de luxo e canteiros de obra. beirando o café de nome italiano e o bar da amargura, onde se chora à vontade após cinco ou seis doses de uísque, estava ela, prostrada num canto onde o vento certamente chegava sem parcimônia. era inverno, o que se notava pela palidez dos muitos passantes por ali, apressados e destemidos, e pela frieza dos apáticos sorrisos que circundavam aquela inóspita região. vestida como de costume, em tons escuros, na imponência de sua elegância, usava um chapéu negro que de longe se notava, cujas abas escondiam metade de seu rosto redondo, a par de quem veste uma carapuça ao anonimato. tragava um cigarro com delicadeza, como se calculasse cada movimento de sua mão, num vai-e-vem que me excitava por mera displicência. era aquela mulher de anos atrás, que me fez partir taciturno após muito penar. era a atriz, a que fazia cinema e me fazia suspirar com um só sorriso. era falante, graciosa, inteligente e, portanto, fingida e astuciosa. sabia que me envolvia em cada palavra, sempre tocando o meu ponto fraco como quem domina um piano com mestria. sabia por onde ir até me despir, sem muito esforço, gozando da habilidade que comumente ostentava diante do sexo oposto. parei alguns minutos antes de abordá-la, recordando-me de como a conheci, rememorando até o dia do mês em que avistei aquela rosa galante pela primeira vez. sem dominar as pernas e os movimentos, o meu corpo guiou-me em sua direção, arrastado pelo instinto, que não era paixão e nem amor, mas puro desejo. é certo que me aguardava, centrada no discurso infalível que proferiria. tanto que, ao aproximar-me, armou-se toda em feminilidade e girou vagarosamente o corpo, de modo a ficarmos a um palmo de distância. abraçou-me fortemente em silêncio e não olhou nos meus olhos. ignorando o acaso daquele encontro, convidou-me para acompanhá-la num passeio às margens do rio da eternidade, desenhando uma naturalidade espantosa, feito a cumplicidade repentina dos fumantes. ofereceu-me o braço esquerdo e pôs-se a andar enquanto narrava o seu cotidiano cheio de sonhos e imperativos. precisava desabafar, desanuviar o seu lirismo que nunca achava onde desaguar senão nos meus sentidos. portava-se com segurança, como se no palco estivesse, não se deixando fraquejar em cada oração. exalava independência, cumpria o seu papel de mulher inatingível. falava, falava, falava e não me deixava muito espaço para também o fazer. era um solilóquio belo, intrigante, fajuto. era o que eu queria ouvir, era a medida certa de um resgate de predileção, a fisgada certeira do meu coração, que de tão vagabundo, acordava sempre só e se deixava levar. ainda mais com aquela mulher, para mim tão bela, que me soava diferente, que me cegava debilmente a cada raro encontro. era do tipo que sentia a necessidade de conquista, de atração, de domínio, na frieza de ver a caça se debatendo até a morte. era uma boa jogadora, insaciável, que se testava a todo instante. desde o princípio, perdi-me em admiração no modo como se movimentava, de como gesticulava e articulava os sorrisos em bonita simetria com os olhos. gostava do seu ar de independência, da altivez que inspirava ao falar de si e do mundo a que aspirava. era incrivelmente feminina no modo de se vestir, o que me atraía e me fazia contemplá-la pacientemente. tinha senso de humor e inteligência em medidas geniosas, fazia-me descobrir suas fraquezas, sua fragilidade, sua vontade quase infantil de ser menos racional. deixava-se revelar, abrindo as portas do passado e escancarando os muitos vãos que ali habitavam, naquele coração dividido entre as frivolidades do orgulho e a vontade de ser menos imponente. guardava em si algo além da beleza sem o saber. e eu me tornava indefeso diante daquela mulher, desarmava-me de qualquer desconfiança e a ela me entregava, inteiro, sem medo. naquele dia, mais uma vez acreditei em suas palavras, que me chegavam como promessas de um futuro feliz e cheio de amor, da confiança de mãos dadas e dos 'bom dia' ditos sem custo. alimentou-me essa ingênua esperança que em mim imperava diante das mulheres, esse desejo de repousar tranquilo no seu colo e dizer coisas bonitas porque sentidas, essa pueril felicidade de amar e ser amado. despediu-se com zelo, fazendo juras de um amanhã menos inconstante. e realmente cumpriu, levando-me adiante, aparecendo-me nos dias seguintes com aquele cheiro envolvente: café, alecrim, lavanda e poesia. a fragrância que o vento, aquele que nela sempre chegava com violência, costumava levar para longe. o que o tempo mostrou-me novamente, que não haveria de ser minha aquela mulher. durou pouco aquela fração de contato. ela era afeto de veraneios, com sua devida intensidade; era estação passageira de frio e calor em conflito; era a personagem principal de alguns dos meus bonitos filmes. e feita pra se ir, deixou-me outra vez, esvaziando-se em lembranças que agora perdem, pouco a pouco, o seu encantamento.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ver-te-ei por aí, já com outro sorriso no rosto, mas com o cheiro de sempre. tentarei abraçar-te, mas não conseguirei. olhar-te-ei brevemente e logo desviarei. faz três noites que nisso penso e prevejo a minha reação, a minha falta de jeito, a minha melancolia de olhos baixos. perdi-te. eu sei. e espero que um dia entendas o meu silêncio.

terça-feira, 30 de março de 2010

e mesmo os teus vagos sinais me indicariam a ausência de se ter. posto que é o amor, calado e só, paciente nas esperas febris. tal qual sonho de uma noite tranquila, a sede que faz do grito seco o silêncio das palavras. esse o nosso destino, de vida que brota dos soltos desejos. a poesia que cerca e circunda, que faz do tempo o elo, que mora em nós, cores furtivas.

metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.

quinta-feira, 25 de março de 2010

a imaginar os dias ao lado teu, perco algumas horas de sono, numa insônia de sonhos, numas tardes de cinza, num banco qualquer. faz falta a presença de uma ausência de anos, sem muito tempo a contar, sem relógio a rodar, sem barcos a navegar; amar. faz de conta num conto; encena tua fábula na praça; e manda lembranças: de ti, de mim, de tudo o que se fizer presente nas estações. desabrocha e dança, encanta-me novamente. aqui, somente a brisa passa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

sussurro sem som

hoje, no que dizem os médicos ser o teu último dia de vida, apetece-me dizer-te pequenas coisas que cá ficaram embrulhadas, embaladas em pele, guardadas em meu pranto ao longo desses anos de saudade e solidão. fazes-me sentir muito mais sóbrio agora ao teu lado novamente, ainda que neste lúgubre leito de unidade de terapia intensiva. apercebo-me só neste instante que me preparaste a adentrar o campo de batalhas com alguma segurança. ensinaste-me a abrir os olhos no escuro e não temer o desconhecido, o não visível. fizeste-me sentir, com o peso da ausência, a dura realidade do abandono, da perda, do desencontro de estações. mostraste-me o quanto eu tinha de aprender para sentir um pouco de liberdade, experimentar da leveza de espírito que tanto reclamavas a ti. só agora aqui, agarrado às tuas mãos, com afinco e fé, com amor e menos receio, me alumia a dor que traduz esta despedida. compreendo-te em cada segundo que se passou. porque deles não existiu um sequer em que meu pensamento tenha fugido de ti. e mesmo nas tuas últimas horas de vida, vejo que consegues desenhar em tua face um quê de prosperidade, essa plenitude que sempre alcançaste sem esforço. és maravilhosa, és demasiado bonita. a tua beleza é sem pressa, é dona de si, é sem vaidade. jamais admirei tanto alguma outra mulher. nunca esquecerei daquele mês de março em que nos cruzamos naquela encantadora exposição literária do guimarães rosa. indaguei-te ligeiramente pra onde nos atrai o azul? e respondeste-me com um sorriso faceiro que felicidade se acha em horinhas de descuido. estava feito. não demorou para descobrirmos o tanto de tanto que haveríamos de dialogar, de viver, de experimentar. apresentaste-me um mundo novo, colorido e furtivo, tal qual tela de aquarela, como as gravuras de frida kahlo por nós tanto seduzidas. descobri em ti a intensidade do prazer de gostar de alguém sem exigências. e me envolveste de olhos fechados. recordo-me bem que gostavas de dançar ao ritmo cubano que tocava aos domingos na gafieira da esquina treze, aqueles infindáveis alvoroços de gente a gargalhar, a se roçar no calor da felicidade eufórica de momento, em que eu me equilibrava em corda bamba, sem olhar para baixo a nortear a altura a que me elevavas em perigo. apaixonava-te por ti mais e mais. eras sangue pulsando na desventura dos dias, vagueando sorrateiro dentro em mim. sorrias bastante, sorrias para o mundo, para qualquer coisa que passasse lá fora, para as crianças no batente da calçada, para as idas e vindas do oxigênio que te bombeava ofegante os pulmões naqueles dias de forte sol que tanto te agradavam. de mãos dadas saíamos a passear, abraçávamo-nos sob a brisa do mar e bronzeávamos nossos corpos sem com nada se preocupar. outras vezes íamos ao cinema, dividíamos a pipoca, os chocolates e os risos. criavas o cenário a detalhes que te custavam até lágrimas fora de hora, não te importavas com o tempo gasto, nem com o excesso das faltas que eu marcava pacientemente no calendário. era teu para ti, somente a ti. e tu nunca foste minha, nunca foste de ninguém. foste sim a criatura mais livre que me existiu. e nunca sofri tanto quando me deixaste sem sequer uma palavra de adeus. deixaste-me somente as palavras doces como herança, de teu sutil encantamento, da delicadeza perdida que aflorava nas horas vagas. escrevi-te longas cartas, já depois de alguns outonos, que sequer saíram da escrivaninha, amarrotaram-se nas gavetas que já se tornavam insuficientes e cheias demais. até que um dia nelas ateei fogo e pôs-se abaixo todo aquele castelo de palavras órfãs. o calor consumiu as minhas tenras declarações, meus pedidos de desculpas, meus pequenos e raros arrependimentos, minhas faltas de razão. não sabia pra que lado havias ido. e fiquei apenas com a lembrança do dia anterior, tu vestida de verde, olhar distante, beijaste-me a testa e te foste, engarrafando-se num comboio pras bandas de lá. de lá de onde não mais voltaste nos dias que se seguiram, de lá de onde te esquivaste à bússola do meu coração. foste ríspida porque nada me disseste naquela tarde que te foste, sem deixar vestígio algum, senão as marcas de desespero que logo lograram-se a uma desvairada insanidade em mim. e doze anos depois apareces de volta, já assim quase sem vida, feito mar sem ondas, feito luz difusa num túnel sem fim. surpreendo-me por não guardar sequer um fio de rancor, uma falha ira, uma mágoa pungente. neste presente já brando, faço-me teu outra vez. não mais me comovendo com o que pode ter sido perdido. se perdemos algo, já se foi. ensinaste-me que as perdas são encontros do outro lado, que vêm de nós mesmos, das escolhas, das vontades que seguimos. e foi com a tua falta de comparência que ergui o norte acerca de tudo o que circunda os labirintos da vida. perdi-te e reencotrei-te. agora tenho a certeza de que sempre estivemos juntos e de que é preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado. descansa em paz, meu amor, minha mulher.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

te apressas em dizer as coisas, atropelando palavras, amiudando os sentidos. dilaceras os inícios de diálogos e logo te comprometes a emudecer-me com alguma frase de efeito. beijas-me a bochecha direita e te vais, sempre a correr. não percebes que os teus receios me afastam de ti cada vez mais? ou fazes de propósito?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

desejar-te-ia uma noite tranquila, cantarolando o leãozinho de caetano, sob um longo abraço de cinco minutos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

a gente se perde no afeto que encontra sem querer. no tamanho dos abraços, no conforto de um beijo, na calmaria de um olhar. qualquer gesto com as mãos, um afago, um repouso, um apoio sincero de dedos se encontrando, o acalentar do corpo. isso que vem da alma e jamais se diz. isso que vem de nós, dos nossos anseios, das nossas procuras. isso que eu sinto serenamente todos os dias ao entrar em contato com os outros. é dessa pele com pele que nasce a poesia do mundo. quero viver poeta, quero morrer poeta. que assim seja.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


faz calor, já se vai o verão, as noites se repetem. hoje não há lua cheia, não há vento na varanda, não há carta tua. acabaram-se os cigarros, gostava de um cabernet sauvignon agora, neste fim de dia. bem perto da janela as tuas orquídeas já sem cor, morrem lentamente, como tudo aqui dentro. o relógio na parede parece ser o único a movimentar-se. cansei da tevê. estou a jogar damas no escuro, a sós. já não sinto aperto no peito, já não faço olhos miúdos ante as tuas fotografias. se um dia para cá voltares, lembra-te de abrir a porta silenciosamente, já não faz sentido a tua alegria de fevereiro por aqui.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

gostava de descrever-te as minhas paixões, as minhas mais bonitas crenças, os meus planos para daqui a dez anos. gostava de tudo aquilo que fazíamos nas tardes de sábado. gostava da tua companhia, do teu cheiro, da tua voz. gostava de ti como eras. é, eu gostava.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

margarida

quando menos espero estou aí, debruçado em tua janela, a regar plantas secas, das que não dão flores, curtindo o vento passar. na ruazinha passa um senhor esguio com uma flauta a tocar. tem também carrinho de algodão doce, fiteiro na esquina e toalhas estendidas, coloridas, sob o céu, o mesmo do mar. te espero pela tarde clara, de céu anil, céu vazio, céu profundo e imenso, como as palavras soltas e perdidas que decorei pra te falar. por aqui o mundo inteiro passa, mas só vejo estrelas, que aprendi a semear. estou aqui e tu não chegas. no meu relógio as horas passam, o ponteiro do segundos corre e me indaga bruscamente: por que ela? fico devendo resposta, o ignoro e tento assobiar. estou rouco, estou faminto, tão sedento por alguma coisa parecida com um abraço, tão sem norte, sem tento, sem lar. passarinho de verão, voar, voar, voar. há pedrinhas de brilhante neste lugar, elas parecem contigo, canção de ninar. que nesse interstício todo, o teu nome já me esqueci, não importa: é com teu coração que irei prosear.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

se disseres que sim, prometo amar-te até o fim.

estás aqui comigo. de pernas cruzadas, sentada ao sofá, com os braços abertos e com um bonito vestido que compraste mês passado. estás de alma aqui, porque sorris enquanto falas. essa absoluta certeza deixa-me contente e nervoso. lá fora faz frio, chove bastante e estás aqui. aqui dentro. aqui perto. hoje poderia ser o meu último dia de vida, assim levaria o teu cheiro comigo pra sempre. estou feliz contigo aqui.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

um castelo de cartas. uma paixão instantânea.


e foi apenas mais uma. eu também, mais um. personagem efêmero. sendo piegas em nome e sobrenome. dançando tango no meio do asfalto. quase cego às cores mortas. declamando poesia em plena roda de prosa. esquecendo as dores de moribundo eternamente frustrado. um coadjuvante, dos que se esquece já na cena seguinte. febrilmente sonhando com um enredo a mais. sóbrio em seu esforço de conquista de espaço. com meias-palavras sinceras e intensos versos a brotar de antigos escritos. que euforia insone, incontáveis vezes a perturbar-me, atiçando o emplastro outrora arranjado por meu lado racional. que bobagem a crença. que frívola a esperança. ela bem diante de sua peça, de sua trama. sentia-se a protagonista. e era. quanto a mim, o ‘sem-nome‘. o tipo gato aos pés da dona. ludibriou-me. encantou-me. não sei ao certo se estava mesmo fora de si. sua desenvoltura estonteante, não de beleza crua, mas de conteúdo, criava um paradoxo com sua segurança mitigada. revelava-se aos poucos. e semelhante à lua quando muda de formato, variava de humor. interpretava, impecavelmente, cada fala. e me deixei envolver. já sem saber onde começava e onde terminava cada um dos papéis. sendo imparcial. sendo infiel às regras da peça. dispensando a maquilagem e os adornos de praxe. amador, sempre iniciante. se antes de aceitar o convite inesperado ao drama dançante, houvesse me prevenido com uma série de analgésicos, talvez fosse mais imparcial. mas aí o roteiro tomou outro rumo, o cenário virou primavera, saí inventando outras falas, cantarolava chico e tomava para mim o tempo das cenas. fui pelo cheiro, sempre o cheiro, de tudo o que sempre me vicia ao longo da vida. e de repente me faltaram as palavras. tive, então, que admitir: nunca fui bom ator. ainda que me aventure, vez em quando, com algumas atrizes. lançando olhares. testando-as. tornando-me um de seus amantes. sem posse, sem excesso, sem cólera. esqueço, quase sempre, os pseudônimos obrigatórios, bem assim as falas decoradas. e logo saio de cena. mas de tão natural, foi uma boa temporada, a última. alguma fotografia vinda da platéia talvez tenha tudo registrado. agora ao fim, deixo as minhas vestes no camarim e desfaço-me de mais uma lúdica fantasia. na saída, deparo-me taciturno, com uma garrafa de vinho e uma leveza de dever cumprido.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

terei muito a dizer entre uma xícara e outra. que talvez comece a escrever um livro ou que economize dinheiro para comprar uma câmera nova, ou ainda que planejo conhecer o rio de janeiro no mês de julho. poderei contar dos dias de chuva e jazz, das leituras que fiz ou dos filmes a que assisti. repetirei o relato do meu cansaço, das crises de impaciência e do mau humor que vez em quando se aboleta. enquanto tu estarás distraída, em teus próprios planos, a devanear tua história. esperarei, inutilmente, que me prometas tempo para que as coisas aconteçam. pensarei em fumar um cigarro. dirás coisas tuas, nomes teus, organizando os fatos passados numa cadeia de tempo. pensarei em fumar dois cigarros. eu te acompanharei, sorrirei e despertarei algum mínimo de interesse por aquilo. abrirei mão de contar coisas minhas, observarei cada palavra e cada conto teus. sentirás fome, comeremos e discutirás música popular brasileira. emitirei opiniões, concordarei com os teus gostos por deles partilhar, imaginarei como escrever sobre os teus olhos, os teus gestos, sobre as tuas pequenas manias que estarei a observar atentamente. provocarei o silêncio, perceberás que estás a errar, ou que talvez a tentar consertar algumas faltas do passado. estarás em outro ritmo, numa velocidade maior, numa ânsia de testar a liberdade. e nisso eu não poderei te seguir. te cansarás de mim, me deixarás. e eu voltarei a tomar insistentemente o meu café, a sonhar, a acalentar pensamentos, sozinho como sempre estive.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

tanta coisa perdida, caída ao chão
dias que passam, o vento
amores vãos e horas de descuido
primaveras, folhas, coisas
solidão

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

gostava quando me olhavas de soslaio, no meio de um canto qualquer, querendo descobrir a razão dos meus risos sem motivo. os teus olhos redondos e inquietos, escuros, fugidios. às vezes te surpreendia num desses momentos e instantaneamente desviava para não estragar o encantamento que era aquele olhar. aquele olhar que eu procurara em tantas mulheres. esse olhar que chegou contigo.